O Moliceiro – o que deve saber sobre o barco que não é uma Gôndola! Breve história do barco Moliceiro

O atual ícone da cidade de Aveiro é o barco Moliceiro. Quantos aveirenses saberão falar sobre esta elogiada e mundialmente reconhecida embarcação portuguesa? Segue-se uma breve história sobre um dos nossos ex-libris.

moliceiro gondola veneza de portugal

“Há-os com o costado por pintar, há-os todos negros, com o grande pescoço segui de cisne, no momento em que volta a cabeça para trás, e com um toque de vermelho no leme…” elogio de Raúl Brandão ao barco moliceiro.

O Moliceiro, como o seu nome indica, era um barco de trabalho utilizado para a apanha do moliço, uma alga aquática (agora escassa) utilizada para adubar os terrenos agrícolas de quase toda a região de Aveiro. O seu recurso predominava desde Ovar até Mira, variando as suas dimensões consoante a zona navegada.

moliceiro na apanha do molico

Correndo o risco de desaparecer devido à quase extinção do uso do moliço, o moliceiro foi recentemente preservado, alvo de uma metamorfose proporcionada por uma nova realidade económica. Reinventado como símbolo cultural da ria de Aveiro, é agora orientado pelo sector turístico.

É na Murtosa que estas criações nascem. Em média, são necessários cerca de 25 dias e 2 homens para a construção de um moliceiro. É essencialmente construído em madeira de pinheiro manso e bravo, espécie predominante na região de Aveiro. O seu tempo médio de vida é de 7 anos.

Actualmente há pouquíssimos construtores navais dedicados à construção de moliceiros. Um deles é João Herculano, da Murtosa, que diz ser um “trabalho difícil mas que vale a pena porque dignifica a embarcação e permite que não se perca esta memória”.

O barco moliceiro tem cerca de 15 metros de comprimento e 2,5m de largura. A sua borda baixa facilitava o carregamento do moliço, mas são as suas elegantes proa e ré que, com as suas pinturas, o distinguem das demais embarcações portuguesas. São decorados com pinturas que, apesar da técnica perene, abordam temas que que se alteram com os tempos. Estes motes são devidos às transições socio-culturais na História de Portugal.

As pinturas dos moliceiros são sempre compostas por texto e imagem. Começaram por ser uma espécie de jornal da Ria, uma plataforma para expressar a opinião e os acontecimentos entre as pessoas de Ovar, Murtosa, São Jacinto, Ílhavo, Mira… O que se passava nestas localidades era representado nestas pinturas. Eram e são uma forma de comunicação que relata a actualidade, homenageia figuras queridas ou satiriza outras indesejadas.

Antigamente, era o próprio construtor naval quem pintava os moliceiros. Depois, por questões de poupança, passaram a ser os proprietários a fazê-lo. Actualmente, é um trabalho encomendado a artistas da região que primam pela preservação desta tradição. Mas quase sempre, os seus autores permanecem em anonimato.

Marisa Carvas, professora de desenho, é uma das atuais pintoras que dão a mão ao “manifesto”. Conta que, geralmente, eram sempre duas as pessoas que pintavam os moliceiros. Este conjunto de pintores poderia resultar da parceria entre 2 homens, 2 mulheres ou um homem e uma mulher. Destas parcerias saía sempre um resultado distinto. No primeiro caso, a pintura seria um pouco machista, ao contrário do segundo caso. No terceiro caso, a pintura era sempre mais comedida. Quando eram os proprietários a decorar o barco, geralmente um casal, por vezes representavam-se a si mesmos. Se estavam zangados, o homem e a mulher surgiam de costas, se estavam bem, surgiam de frente. Faziam-se acompanhar por dizeres e representações algo “brejeiras”. Eis alguns exemplos:

Marisa Carvas é da opinião que os temas abordados podem e devem ser actualizados, acompanhar os tempos que correm, defendendo que a única coisa que deve ser respeitada e mantida são as próprias técnicas de construção e pintura utilizadas para que o barco não seja descaracterizado.

É, na verdade, o que tem vindo a acontecer. As várias temáticas abordadas abrangem conteúdos religiosos, burlescos, sociais, históricos e lúdicos, consoante a actualidade e o mediatismo. Comentam-se os trabalhos e as vidas dos envolvidos nas embarcações, as instituições e figuras públicas, as festas e cerimónias, os descobrimentos, os militares… As mais recentes pinturas falam, por exemplo, de equipas e jogadores de futebol, do fado, da política, da União Europeia, do Big Brother ou da crise económica… Nada escapa à visão crítica de um pintor de moliceiros!

“À CONVERSA COM UM PINTOR DE MOLICEIROS!”

Felizmente e graças a esta metamorfose, podemos admirar todos os dias o alegre passeio dos moliceiros nos canais urbanos da ria de Aveiro. Para o aveirense, esta paisagem já se tornou habitual mas, para quem nos visita, esta é uma bonita tela de inspiração que apaixona e faz da nossa uma cidade única!

“Tubarão” Atita (ou Eduardo Raposo Rodrigues de Sousa) O professor de Natação e o Tubarão do mar e da ria de Aveiro

Atita aveiro natacao ria mar aveiro

A época balnear de 2018 traz consigo um suspiro de saudade. Este ano, já não veremos o audaz e querido Atita pelas praias da região.

Atita, registado com o nome Eduardo Raposo Rodrigues de Sousa, nasceu e cresceu em Aveiro, mais precisamente no bairro da Beira-mar, na Rua do Arco, nº8, em frente à porta da sacristia da capela de São Gonçalinho.

Muito cedo, separou-se do seu verdadeiro nome recebendo, por herança do seu pai, a alcunha de “Atita”.

Segundo o próprio contava, «… na altura do meu pai, o Rossio, onde agora estão aquelas palmeiras, estava cheio de cardos e usava-se o chamado bisgo (espécie de cola)  para apanhar os pintassilgos que lá poisavam. Mas, como a malta era muita, sei lá, uns 10 ou 12, e o meu pai era o mais pequeno de todos, então diziam-lhe; “Oh pá, bai lá daquele lado atitar aos pintassilgos.” ».

E assim nasceu a alcunha de Atita – atitar significa soltar atitos (pios de certas aves). Esta alcunha permaneceu na família, mas foi Eduardo Raposo quem a herdou, “por ser o mais maroto da família” e aquele que mais se destacou na comunidade aveirense.

Desde muito cedo dedicou-se à Natação. Alías, em Aveiro, a sua alcunha é indissociável desta prática. O “Tubarão da ria e do mar” poderá ter vivido mais tempo dentro de água do que fora dela. Fosse na ria, no mar ou nas piscinas, ensinou sequelas de gerações aveirenses a nadar. Como atleta, representou sempre o Sport Club Beira-Mar e foi, entre outros títulos, campeão dos 100m, 400m e 1500m em provas regionais. Fez da ria a sua piscina particular e das pontes de Carcavelos, Dobadoura e São João as suas pranchas de saltos.

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Atita, na década de 60 com alguns dos aveirenses que ensinou a nadar.

Entre distintos ofícios – que passaram pela tipografia Lusitânia como encadernador, a casa Varela como comerciante de artigos de pesca, a fábrica do Canal e a fábrica Campos, envolvido na produção cerâmica,  e uma escapadela para os Estados Unidos da América (de 1968 a 1981) onde foi padeiro e operário fabril – dedicou-se sempre à prática e ao ensino da Natação. Mas foi a partir do seu regresso a Aveiro, em 1981, que se empenhou, exclusivamente, neste ensino. Nas várias piscinas do município, na antiga lota (praia das Pirâmides), no Poço de Santiago no Canal de São Roque e nas praias da “Biarritz” e de “San Sebastian” na Costa Nova. Conta-se que, por ano, ensinava cerca de 250 pessoas a nadar. Ao fim de mais de 40 anos a fazê-lo, este número excede os 10 000 aveirenses!

«Aprender a nadar com o Atita tinha em Aveiro quase um valor de baptismo de aveirense» Luís Souto

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Atita no Poço de Santiago.

Atita foi um dos primeiros a dar aulas de natação a crianças deficientes e a pessoas com idades mais avançadas. Também contribuiu para a formação de bombeiros locais, candidatos a mergulhadores, que absorveram os seus valiosos conselhos.

Foi Nadador Salvador nas piscinas e praias aveirenses. Salvou mais de 30 vidas, o que lhe valeu uma medalha de prata do Instituto de Socorros a Náufragos.

«O que eu gosto de ver são aqueles que salvei terem as suas famílias, isso é que me conforta o coração. (…) Costuma-se dizer que uma pessoa que salva uma vida salva o mundo, imagina quantos mundos é que eu já salvei…»

Descrito pela sua personalidade extrovertida, alegria contagiante e altruísmo, foi dinamizador de diversas actividades recreativas e desportivas. Entre as quais, criou o famoso “Banho dos Magníficos”, o famoso primeiro mergulho do ano, na praia da Barra, que arrasta multidões às águas frias do Atlântico a cada dia 1 de Janeiro.

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Atita vestido de Pai Natal, em 1 de Janeiro de 2002, na praia da Barra.

Deu origem à “Corrida da Amizade”, apoiada pela Banda Amizade e dirigiu a Associação “Amigos do Parque”em defesa do espaço verde mais antigo da cidade de Aveiro, o parque Infante D. Pedro.

Atita foi também protagonista numa parte do filme “As mil e uma noites” de Miguel Gomes, precisamente na parte “o banho dos magníficos”, que ficou em 4º lugar em Cannes!

Uma das suas últimas grandes emoções foi receber a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Civil das mãos de Marcelo Rebelo de Sousa, a quem ainda desafiou para o próximo mergulho dos “Magníficos”.

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Atita homenageado com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Civil, pelas mãos de Marcelo Rebelo de Sousa, em 2017

Três dias depois, a 10 de Dezembro de 2017, com 85 anos, faleceu o incrível Atita. Mas a cidade recorda-o e celebra-o com o mesmo carinho que sempre mereceu, embora agora com saudade.

O “Banho dos Magníficos” continuará a ser um seu legado aos aveirenses e a quem mais se quiser juntar, mas agora salpicado com um cunho de homenagem ao grande Atita.

Poderá apreciar o tributo municipal a Atita, encomendado na forma de graffiti ao artista Fábio Carneiro , que traduziu numa pintura hiper-realista a sua grandiosidade. Este graffiti está agora colocado sob a “Ponte de Pau”, no centro de Aveiro.

12 Projetos de Reabilitação de Imóveis em Aveiro que vai querer conhecer Mostramos-lhe como casas totalmente desatualizadas ou inabitáveis se transformaram em imóveis de sonho!

reabilitação de imóveis

A reabilitação de imóveis é cada vez mais emergente e a oferta de imóveis devolutos a pedir reforma é enorme. Damos a conhecer 12 projetos de reabilitação de imóveis em Aveiro que merecem a sua atenção e que servem de inspiração.

Mostramos-lhe como um imóvel extremamente desactualizado ou arruinado pode converter-se num espaço super moderno e confortável.

 


 

APOIOS PARA PROJECTOS DE RESTAURO E REABILITAÇÃO URBANA

No final de Junho de 2017 o Governo lançou o período de candidaturas de projectos de imóveis para restauro e reabilitação urbana que podem ser apoiados pelo IFRRU 2020 – Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas. Saiba mais sobre estes apoios aqui.

Estas são algumas das moradias para restauro ou reabilitação para venda em Aveiro
(clique na imagem para conhecer estes imóveis):

moradias para reabilitar Aveiro


Se conhece mais projetos de reabilitação de moradias ou apartamentos em Aveiro que considere que deviam ser alvo de atenção, partilhe-os connosco nos comentários! Os aveirenses e o resto do mundo vão, com certeza, gostar de os conhecer.

Conheça o bairro da Beira Mar no livro de Suzy Caldeira e Suzana Nobre

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Fique a saber por que é que Aveiro é uma cidade tão ventosa, por que razão a sua população celebra um “santo” de Amarante e saiba quem foi a filha da terra que teve de se disfarçar de homem para combater no Norte de África ao serviço da coroa portuguesa. Histórias do bairro da Beira Mar.

Estas e outras histórias são reveladas no livro “Rota do Bairro da Beira Mar” escrito por Suzy Caldeira (guia da “Explore Aveiro”) e ilustrado por Suzana Nobre, lançado no passado dia 30 de Junho de 2017.

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Suzy Caldeira e Suzana Nobre, autoras do livro “Rota do Bairro da Beira Mar”.
Neste livro são partilhados lugares e pormenores, lendas e tradições do bairro mais emblemático de Aveiro, o bairro da Beira-Mar. Com uma escrita de fácil interpretação e ilustrações leves e objectivas com pormenores do património, da história e dos aspetos da sua mitologia.
livro Rota do Bairro da Beira Mar
Pormenor do livro e das ilustrações de Suzana Nobre.
Este é o primeiro de vários livros a serem criados para a coleção “Descobrir Aveiro”, que trará em cada número um Bairro ou Temática específica do distrito de Aveiro.

Faz parte de um projeto de edição particular, em que as autoras (não naturais da região mas totalmente rendidas à mesma) assumem todas as etapas do projeto criativo e o custo e risco da respectiva edição.

No prefácio de José Carlos Mota, docente no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro pode ler-se “um trabalho de enorme qualidade a merecer louvor e apoio”.

Deixe-se encantar com algumas das ilustrações de Suzana Nobre sobre Aveiro, a ria e os seus elementos únicos, no vídeo que se segue.

O livro poderá ser adquirido a partir da sua página de Facebook ou nas várias papelarias locais e lojas dedicadas a autores regionais e nacionais como o Cais à Porta e o Aqui à Volta.


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Breve história do Bairro do Alboi – antes e depois

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Isolado, o edifício do «novo matadouro», obra de 1870. Ao centro, os terrenos, cortados por um esteiro, onde assentaria a parte moderna, ou seja, então ainda «a haver» do bairro do Alboi. Foto das mais antigas da cidade, presumivelmente de 1880

A etimologia do nome Alboi poderá vir de 3 origens, cada uma com o seu quê de lógico. Segue-se uma breve história do Bairro do Alboi em Aveiro. Continuar a ler “Breve história do Bairro do Alboi – antes e depois”

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