O Rossio de Aveiro – Coração da cidade, pulmão do bairro da Beira-Mar Um terreiro com mais de 500 anos de história! Fique a conhecê-la!

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Rossio, o carismático terreiro de Aveiro que conta mais de 500 anos de História e de estórias locais.

O coração de Aveiro e pulmão da Beira-Mar, palco de grandes acontecimentos que marcaram as várias épocas da evolução da cidade, está novamente em fase de mutação. Conheça a história do desenvolvimento deste acarinhado parque urbano.

Atualmente conhecido pelo Largo do Rossio, já se chamou Ressio, Roxio, Rossia e Rocio. Antes de ser terreiro por lá existia uma marinha de sal acostada por uma praça pública, que deu origem ao seu nome, Rossio de São João.

O Rossio já foi morada de uma capela, um pelourinho, um matadouro, dois velódromos, duas praças de touros, um cinema, um teatro, um salão de chá e um campo de futebol! Sem faltar claro, a origem da Feira Franca, hoje em dia aclamada de Feira de Março!

Atualmente existe um extenso relvado com árvores frondosas, um jardim infantil e um pequeno auditório ao ar livre, entre outras instalações de mobiliário urbano que fazem as delícias do lazer dos aveirenses e visitantes. Ali já estiveram bem assentes 29 palmeiras mas, depois da epidemia do escaravelho vermelho, em 2016, passaram a existir muito menos.

SÉCULO XV – A FEIRA FRANCA NA PRAÇA PÚBLICA
De Feira Franca a Feira de Março

Foi aqui, mais precisamente junto ao Canal Central, que nasceu a que hoje conhecemos por Feira de Março, mas que então foi baptizada de Feira Franca.

Em 1434, El-rei D. Duarte, o “Eloquente”, permitiu que o seu irmão, o Infante D. Pedro – senhor de Aveiro – realizasse em terras aveirenses uma feira de oito dias. Aqui podiam encontrar-se alfaias agrícolas, mantas de trapos, presuntos e queijos, louças, artesanato…

A selecção deste local deveu-se à grande importância comercial que este ponto apresentava na época. A Feira Franca facilitaria a movimentação de bens e mercadorias e o desenvolvimento económico da região. Era, para alguns, a oportunidade de acesso a bens que, de outro modo, seriam inacessíveis.

Conta-se que, durante este evento, nenhum criminoso poderia ser preso a não ser que fosse apanhado em flagrante na própria feira.

Só a partir de 1497 esta feira passou a acontecer em Março e só aí ganhou o nome pela qual é hoje conhecida, a Feira de Março. Finda a feira, as barracas que ali ficavam serviam de “templo de amores a troco de dinheiro”.

Foi em 1497 que esta feira passou a acontecer no mês de Março.

Em 1959 foi celebrado no mesmo lugar o milenário de Aveiro e o bicentenário de elevação de Aveiro a cidade, tendo sido realizada uma Feira Industrial.

A Feira de Março decorreu anualmente no Rossio até 1979, ano em que passou a realizar-se no Canal do Côjo, antigo recinto de feiras em Aveiro.

SÉCULO XVI – A MARINHA DE SAL TRANSFORMADA EM FORTE DE TERRA

Os consecutivos ataques de invasores vindos do mar e o respetivo roubo de navios de mercadorias obrigou a que as naus, de visita à Terra Nova (Aveiro) em busca de bacalhau, viessem armadas. Em 1580, o então Prior do Crato (vila de Portalegre) indicou que se construísse um forte de terra no lugar da marinha de sal . Deste modo, os espingardeiros podiam desembarcar e ter espaço para, estratégicamente, se defenderem. Em 1585, Marcos Vidal, navegador aveirense, decretou caça aos piratas ingleses na Terra Nova.

SÉCULO XVII – A CAPELA DE SÃO JOÃO

Em 1607 foi erguida no Rossio a capela de São João, que foi demolida em 1911, dando lugar à afamada capela de São Gonçalinho, mas situada um pouco mais acima, no bairro da Beira-Mar, para onde foram deslocadas as imagens religiosas que a habitavam.

SÉCULO XIX – DE MARINHA ROSSIA A LARGO DO ROSSIO

COMO TUDO COMEÇOU

O Rossio nem sempre conheceu a superfície que hoje conhecemos. Era maioritariamente um terreno alagado acostado por uma praça pública. Só em 1851, o então presidente da Câmara Municipal decidiu aterrar a “marinha rossia, com vista a dar ao Largo do Rossio uma forma regular, arborizando-o e embelezando-o”.

Em 1865 é também proposto um aumento do número de habitações na zona rossia, uma vez que várias famílias se encontravam aglomeradas em casas que não suportavam tão grande número de moradores.

Só a partir de 1875 o Rossio conheceu a forma que hoje conhecemos. Desde então por lá passaram diversas infra-estruturas das quais damos a conhecer algumas:

PRAÇAS DE TOUROS

O primeiro Matadouro Municipal de que há registo em Aveiro existiu no Rossio, por volta de 1817. Em 1863 foi improvisada no Rossio uma Praça de Touros, o que parece ter sido um sucesso porque, em 1876, construía-se uma praça a sério. Viria a ser demolida em 1897. Talvez por deixar saudades, 10 anos depois, em 1907, um novo Tauródromo é erguido no mesmo local. Lá assistiu-se a uma tourada com “diestros” espanhóis, organizada pelo Sport Clube do Beira-Mar.  No entanto, passado um ano, este recinto viria a ser desmontado e vendido. Ainda se organizaram mais duas touradas, 10 anos depois, numa Praça de Touros improvisada, a favor da Cruz Vermelha. Ao que tudo indica, esta data anúnciou o fim das touradas em Aveiro.

VELÓDROMO

Aveiro conta com muitos anos de cultura velocípede. Foi das primeiras cidades a interessar-se tão calorosamente pelo ciclismo. Ao lado do Tauródromo, quase no final do século, em 1895, foi inaugurado o Velódromo do Rossio. Este ano celebraria 123 anos de existência! Quase 10 anos depois foi construído junto ao Canal do Côjo, o 2º velódromo do Rossio, por iniciativa do Clube dos Galitos. Aqui, entusiasmantes corridas foram realizadas e assistidas.

CAMPO DE FUTEBOL

Em 1921, o Rossio viu surgir no seu terreiro um Campo de Futebol improvisado ao ar livre, criado por alguns rapazes do bairro piscatório da Beira-Mar, recém-chegados dos Estados Unidos. Ali, à beira da ria, nasceu o Sport Clube Beira-Mar, fortalecido pela brisa salgada da maresia.

CINE-ROSSIO

Em Junho de 1928, foi inaugurado no Rossio de Aveiro o “Rossio-Cine”, ao ar-livre, exibindo o filme “Dagfin, patinador”. O capitão de fragata Silvério Cunha, cidadão preocupado com a cidade e a ria, aproveita este espaço para promover uma palestra com o tema “Aveiro no Passado, a história da laguna e a fase atual da questão”

CASAS DE CHÁ E COLOCAÇÃO DA ESTÁTUA DE JOÃO AFONSO DE AVEIRO

Em 1936 uma casa de chá, toda em madeira, é inaugurada no Rossio. Ao que tudo indica e analisando pelas fotografias da época, nas cheias de 1938 este edifício já lá não estaria. Conta-se que as estacas que tocavam a ria apodreceram e a mesma ruiu. No seu lugar foi construído um WC público.

Mas em 1959, nas comemorações do milenário e do bicentenário de elevação de Aveiro a cidade, foi realizada uma Feira Industrial no Rossio. Em paralelo, foi colocada no mesmo espaço a estátua de João Afonso de Aveiro – navegador – e nasceu um novo Salão de Chá, com um pé no terreiro e outro na ria.

Por concessão da Câmara Municipal, este edíficio, denominado de Café do Rossio ou Casa de Chá, começou por ser gerido pela paróquia da Vera Cruz, durante a Feira de Março e as várias verbenas por lá organizadas, em prol da Cruz Vermelha. Vários aveirenses ainda se recordam de ter ajudado no atendimento ao público. Dele guardam divertidas memórias e muitas saudades!

“Que saudades deste café, onde passei momentos muitooooo felizes da minha juventude!”
Aldina Miranda

“Era lindo!!!tudo no ROSSIO deixou SAUDADES!!”
Maria Salgado

“Era um belo pré-fabricado, colorido, de linhas modernas, contra o verde do arvoredo.”
Maria Manuela

Este foi também o primeiro café do senhor Augusto, fundador da afamada cervejaria “O Augusto” , após ter deixado de trabalhar na cervejaria Tico-Tico. Nesta fase, funcionava durante todo o ano.

Serviu ainda de sede provisória do S. C. Beira-Mar, aquando o incêndio das suas instalações na Av. Dr. Lourenço Peixinho, em 1965. Depois destas passagens, foi sede de Turismo e por fim, no início dos anos 70, foi demolido e nunca mais no Rossio habitou uma estrutura tão moderna e original.

OS PARQUES INFANTIS DO ROSSIO

Também várias gerações de pequenos cidadãos e visitantes têm usufruido deste parque, em brincadeiras de imaginação infinita. Cada geração teve direito a um parque infantil diferente, mas todas as versões foram aproveitas ao máximo!

O ROSSIO NO SÉCULO XXI

Nos dias que correm, o Rossio é a praça pública aveirense mais frequentada. Com o aumento do turismo na cidade,  este local serve de ponto de chegada, de encontro e de referência para milhares de turistas. É aqui que nascem as inúmeras histórias de amor que Aveiro grava no coração de quem a visita.

O Rossio de Aveiro é lugar aprazível para brincar, exercitar, descansar, piquenicar, contemplar e namorar!

Fontes: www.forumtouradas.com | ww3.aeje.pt | sweet.ua.pt | www.galitos.pt | www.comunidadeculturaearte.com | ancnp.pt


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“Tubarão” Atita (ou Eduardo Raposo Rodrigues de Sousa) O professor de Natação e o Tubarão do mar e da ria de Aveiro

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A época balnear de 2018 traz consigo um suspiro de saudade. Este ano, já não veremos o audaz e querido Atita pelas praias da região.

Atita, registado com o nome Eduardo Raposo Rodrigues de Sousa, nasceu e cresceu em Aveiro, mais precisamente no bairro da Beira-mar, na Rua do Arco, nº8, em frente à porta da sacristia da capela de São Gonçalinho.

Muito cedo, separou-se do seu verdadeiro nome recebendo, por herança do seu pai, a alcunha de “Atita”.

Segundo o próprio contava, «… na altura do meu pai, o Rossio, onde agora estão aquelas palmeiras, estava cheio de cardos e usava-se o chamado bisgo (espécie de cola)  para apanhar os pintassilgos que lá poisavam. Mas, como a malta era muita, sei lá, uns 10 ou 12, e o meu pai era o mais pequeno de todos, então diziam-lhe; “Oh pá, bai lá daquele lado atitar aos pintassilgos.” ».

E assim nasceu a alcunha de Atita – atitar significa soltar atitos (pios de certas aves). Esta alcunha permaneceu na família, mas foi Eduardo Raposo quem a herdou, “por ser o mais maroto da família” e aquele que mais se destacou na comunidade aveirense.

Desde muito cedo dedicou-se à Natação. Alías, em Aveiro, a sua alcunha é indissociável desta prática. O “Tubarão da ria e do mar” poderá ter vivido mais tempo dentro de água do que fora dela. Fosse na ria, no mar ou nas piscinas, ensinou sequelas de gerações aveirenses a nadar. Como atleta, representou sempre o Sport Club Beira-Mar e foi, entre outros títulos, campeão dos 100m, 400m e 1500m em provas regionais. Fez da ria a sua piscina particular e das pontes de Carcavelos, Dobadoura e São João as suas pranchas de saltos.

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Atita, na década de 60 com alguns dos aveirenses que ensinou a nadar.

Entre distintos ofícios – que passaram pela tipografia Lusitânia como encadernador, a casa Varela como comerciante de artigos de pesca, a fábrica do Canal e a fábrica Campos, envolvido na produção cerâmica,  e uma escapadela para os Estados Unidos da América (de 1968 a 1981) onde foi padeiro e operário fabril – dedicou-se sempre à prática e ao ensino da Natação. Mas foi a partir do seu regresso a Aveiro, em 1981, que se empenhou, exclusivamente, neste ensino. Nas várias piscinas do município, na antiga lota (praia das Pirâmides), no Poço de Santiago no Canal de São Roque e nas praias da “Biarritz” e de “San Sebastian” na Costa Nova. Conta-se que, por ano, ensinava cerca de 250 pessoas a nadar. Ao fim de mais de 40 anos a fazê-lo, este número excede os 10 000 aveirenses!

«Aprender a nadar com o Atita tinha em Aveiro quase um valor de baptismo de aveirense» Luís Souto

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Atita no Poço de Santiago.

Atita foi um dos primeiros a dar aulas de natação a crianças deficientes e a pessoas com idades mais avançadas. Também contribuiu para a formação de bombeiros locais, candidatos a mergulhadores, que absorveram os seus valiosos conselhos.

Foi Nadador Salvador nas piscinas e praias aveirenses. Salvou mais de 30 vidas, o que lhe valeu uma medalha de prata do Instituto de Socorros a Náufragos.

«O que eu gosto de ver são aqueles que salvei terem as suas famílias, isso é que me conforta o coração. (…) Costuma-se dizer que uma pessoa que salva uma vida salva o mundo, imagina quantos mundos é que eu já salvei…»

Descrito pela sua personalidade extrovertida, alegria contagiante e altruísmo, foi dinamizador de diversas actividades recreativas e desportivas. Entre as quais, criou o famoso “Banho dos Magníficos”, o famoso primeiro mergulho do ano, na praia da Barra, que arrasta multidões às águas frias do Atlântico a cada dia 1 de Janeiro.

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Atita vestido de Pai Natal, em 1 de Janeiro de 2002, na praia da Barra.

Deu origem à “Corrida da Amizade”, apoiada pela Banda Amizade e dirigiu a Associação “Amigos do Parque”em defesa do espaço verde mais antigo da cidade de Aveiro, o parque Infante D. Pedro.

Atita foi também protagonista numa parte do filme “As mil e uma noites” de Miguel Gomes, precisamente na parte “o banho dos magníficos”, que ficou em 4º lugar em Cannes!

Uma das suas últimas grandes emoções foi receber a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Civil das mãos de Marcelo Rebelo de Sousa, a quem ainda desafiou para o próximo mergulho dos “Magníficos”.

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Atita homenageado com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Civil, pelas mãos de Marcelo Rebelo de Sousa, em 2017

Três dias depois, a 10 de Dezembro de 2017, com 85 anos, faleceu o incrível Atita. Mas a cidade recorda-o e celebra-o com o mesmo carinho que sempre mereceu, embora agora com saudade.

O “Banho dos Magníficos” continuará a ser um seu legado aos aveirenses e a quem mais se quiser juntar, mas agora salpicado com um cunho de homenagem ao grande Atita.

Poderá apreciar o tributo municipal a Atita, encomendado na forma de graffiti ao artista Fábio Carneiro , que traduziu numa pintura hiper-realista a sua grandiosidade. Este graffiti está agora colocado sob a “Ponte de Pau”, no centro de Aveiro.